E quem é gênero-fluido, mas atraíde só por um gênero?

Alguém que pediu anonimidade perguntou:

Oi. Queria saber se uma pessoa gênero-fluído pode usar termos quando flui. Se é mulher, lésbica, se é homem, hétero, se é nb, gine etc.

A versão curta da minha resposta é a seguinte:

Pode sim. Mas também pode usar termos que não mudam de acordo com o gênero ou que são específicos para quem é gênero-fluido se a pessoa não quiser confundir outras, ficar mudando os termos que usa ou mesmo não se sentir bem em classificar sua orientação como algo que a pessoa só é às vezes.

E aqui está a versão elaborada disso:

Existe mais de uma forma dessa pessoa se definir, e todas elas são válidas. Elas se resumem a trocar de rótulo de tempos em tempos, como no exemplo da pergunta, e a usar sempre o mesmo rótulo.

Pessoas não-binárias não precisam se conformar com expectativas binárias de como suas orientações devem funcionar. E isso pode incluir ter que aceitar que alguém pode às vezes ser mulher e ver o termo lésbique como adequado para si e às vezes ser homem e ver o termo hétero como adequado para si.

Porém, tem gente que não quer falar que é de uma orientação diferente cada vez, ou que não quer ter que ficar mudando perfis e coisas assim. Estas pessoas podem optar por diversas soluções:

A primeira é usar um termo específico para pessoas não-binárias. Alguns deles são feminamórique, viramórique, mártique, terrárique e venúsique. Qualquer pessoa cuja identidade de gênero pode ser caracterizada por mudar de tempos em tempos pode se dizer não-binária e por isso pode sempre usar tais orientações, mesmo que em momentos a pessoa seja completamente homem ou completamente mulher.

A segunda é usar um termo específico para sua situação. Femidux é alguém gênero-fluido que sente atração apenas por mulheres. Alguém fluoriane é homem, mulher e não-binárie e sente atração por homens (exclusivamente ou não), o que pode ser útil para pessoas cuja identidade de gênero flui entre gêneros binários e não-binários. Alguém umbaliane é homem não-binárie ou não-binárie e homem, e sente atração por mulheres (exclusivamente ou não), e este termo pode ser usado da mesma forma. Alguém bigenidiane é bigênero e sente atração por pessoas não-binárias, exclusivamente ou não, e pessoas gênero-fluido entre dois gêneros contam como bigênero.

A terceira é usar um termo geral aberto a qualquer gênero que a pessoa tiver. Alguém embinárique sente atração por pessoas não-binárias (exclusivamente ou não). Alguém femínique é LGBTQIAPN+ e sente atração por mulheres (exclusivamente ou não). Alguém mascúlique é LGBTQIAPN+ e sente atração por homens (exclusivamente ou não). Quem é bi, paro, gris, sans ou de outras orientações assim já está fazendo isso.

A quarta é algo que só estou sugerindo porque já vi pessoas fazendo: usar orientações fluidas. Já vi pessoas justificando que, por exemplo, se são gays quando homens e hétero quando mulheres, isso significa que sua orientação muda (ainda que seu funcionamento não mude). Daí essas pessoas usam abro ou mud, por exemplo. Eu não acho que tais termos foram cunhados para este tipo de uso, mas tecnicamente as definições podem ser interpretadas de forma que incluem tal experiência.

Algumas listas de termos para quem quiser explorar mais isso estão disponíveis aqui, aqui e aqui.

~ Ás

Alguns estetigêneros!

Eu estava com algum tempo livre, então decidi fazer a seguinte imagem falando sobre estetigêneros.

Descrição da imagem:

Estetigêneros

O que são:

• Identidades de gênero baseadas em/relacionadas com estéticas.

• Como quaisquer xenogêneros, são identidades pouco conhecidas/ utilizadas, mas tão válidas quanto outras experiências não-binárias.

O que não são:

• Identidades para pessoas cis que simplesmente gostam de ou usam roupas de acordo com certa estética.

• Identidades que são sempre cunhadas/utilizadas por trolls tentando difamar a comunidade.

Alguns exemplos de identidades que podem ser consideradas estetigêneros:
Caelgênero: Um gênero esteticamente relacionado com o espaço/cosmos.
Córique: Alguém cuja identidade de gênero é relacionada a alguma coisa “-core” (emocore, scenecore, etc). A pessoa pode usar o prefixo em questão (metalcórique, etc).
Fleurgênero: Um gênero relacionado com uma estética de leveza/suavidade, como cores pastéis, flores e afins.
Fluidestelar: Uma forma de gênero-fluido ligada à energia ou à estética de espaço/estrelas.
Gênero-esmeralda: Um gênero esteticamente relacionado com esmeraldas que é neutro e vagamente fluido.
Gênero-praia: Um gênero xenino esteticamente envolvido com praias e/ou um gênero que possui qualidades comparáveis com uma praia.
Gênero-bússola: Um gênero ligado com um ou mais pontos cardeais e com arquétipos associados com eles.
Gênero-noir: Um estetigênero baseado na subcultura gótica.

É comum gêneros serem definidos por arquétipos. Porém, muitas pessoas não conseguem ver seus gêneros se encaixando em arquétipos de feminilidade, masculinidade e afins, ainda que não sejam completamente sem gênero. É daí que vem a ideia de relacionar o próprio gênero com outros conceitos.

Fim da descrição da imagem.

Para expandir um pouco, uma página que explica com mais detalhes o que são xenogêneros (uma categoria de identidade de gênero que abrange estetigêneros, entre outras identidades) se encontra aqui, e umas postagens que falam com mais detalhes dos gêneros-bússola se encontram aqui.

Além disso, quem é fluidestelar pode mudar entre gêneros quaisquer (ou seja, não precisam ser necessariamente caelgêneros), mas há alguma ligação com espaço/estrelas que permanece.

A maioria destes rótulos está disponível em postagens separadas em Colorid.es aqui!

E, bem, já que eu sei que toda vez que falamos algo sobre xenogêneros aqui isso vira motivo de “discussão”, gente que “não entende/acredita” e ódio…

Sinceramente, pouco me importa se alguém é, por exemplo, caelgênero, por ser uma pessoa não-binária que incorpora uma estética de espaço nas coisas que usa e em sua expressão de gênero, ou se a pessoa só consegue definir o próprio gênero se disser que é como se fosse um vácuo imenso ou uma estrela anã branca por conta de características como ser algo muito importante para a vida da pessoa ainda que seu gênero seja fraco ou nulo, ou o que for.

Qualquer pessoa não-binária sofre por não ser cis e por não ser binária, e não é querer achar rótulos que se encaixem melhor, que sejam mais legais ou que combinem mais com outros aspectos da vida da pessoa que vai merecer repressão por “comprometer a comunidade” ou “se passar por algo que não existe” ou qualquer outra desculpa usada para censurar pessoas não-binárias.

Pessoas não-binárias merecem ter linguagem e símbolos para se expressarem, assim como pessoas binárias têm essas coisas de sobra. E merecem não ter essas coisas constantemente questionadas e “problematizadas” (entre aspas porque a maioria dos motivos usados para dizer que esses rótulos são problemáticos tem a ver com querer se assimilar a estruturas normativas), tornando ambientes hostis a pessoas que querem usar termos específicos e/ou que estão ainda em busca dos termos certos para suas identidades.

Também é válido lembrar que muita gente não usa rótulos como xenogênero, estetigênero, ou até mesmo não-binárie, mas prefere definir seu gênero usando nomes de coisas, animais, estilos, sensações e afins; estas pessoas são tão válidas quanto qualquer pessoa que usa termos como gênero-praia ou fluidestelar.

Desejo forças a todas as pessoas estetigênero que precisam lidar não só com o exorsexismo de sempre, mas também com ódio mais específico contra identidades como as suas, até mesmo dentro de comunidades não-binárias.

~ Ás

Uma mesma experiência pode ter várias possibilidades de rótulos diferentes

Recebemos a seguinte pergunta:

Meu gênero é fluido. Eu geralmente tenho mais de um gênero, e quase todos eles são relacionados com estéticas e/ou com elementos da natureza.

Geralmente eu me digo polixenogênero, pela vasta quantidade de xenogêneros que senti ou sinto.

Mas, vocês acham que xenofluidy seria um termo mais adequado pra mim, já que a fluidez é importante e indica a presença de mais de um gênero?

E, se eu tiver um ou outro gênero que não é xenogênero, eu ainda poderia usar algum desses rótulos, ou haveria outro mais adequado (além de poligênero/gênero-fluido)?

É você quem sabe se prefere usar polixenogênero, xenofluidy, ou apenas termos mais gerais como poligênero, gênero-fluido ou xenogênero. Sua experiência parece se encaixar bem em todos estes termos.

Polixenogênero traz uma ideia maior de ter vários gêneros, na minha opinião, mas se a fluidez é mais importante, xenofluidy pode ser melhor.

Sobre a questão de sentir outros gêneros, eu pessoalmente sou a favor da ideia de que se um rótulo serve para quase todos os casos, não tem problema usá-lo mesmo que uma exceção o contradiga.

Mas, se você sentir mal em continuar usando estes rótulos, você pode começar a usar algum mais abrangente citado, ou mesmo eafluide (alguém que flui sempre ou majoritariamente entre gêneros não-binários) ou gênero-flor (alguém que flui entre gêneros mas que nunca é homem ou mulher) caso as outras identidades de gênero que você experiencie sejam não-binárias também.

~ Ás

Links para definições de termos mencionados: poligênero | xenogênero | gênero-fluido | eafluide | gênero-flor

Não, xenogêneros não são “bait”

Z., que usa ê/elu/e, mandou a seguinte pergunta:

Queria saber se gêneros como gênero estrela, vácuo e derivados são gêneros. Tenho certeza que são mas com tanta gente dizendo que são bait eu fico me questionando

As identidades que você citou são de um grupo específico – caelgêneros, identidades de gênero relacionadas com espaço – mas mesmo quando você cita “derivados”, acredito que esteja falando de qualquer xenogênero.

Xenogêneros são identidades de gênero que utilizam arquétipos, sentimentos, objetos, elementos da natureza, estéticas e outras coisas que comumente não são vistas como relacionadas com gêneros como metáforas, analogias e/ou descrições em suas definições.

Posso afirmar que, sim, estas são experiências reais.

Talvez não como a maioria pense. Pessoas costumam ver alguém se descrevendo como gênero-estrela e pensam que a pessoa se identifica como estrela de forma que tem mais a ver com otherkin do que com identidade de gênero, quer fazer transição física para virar uma estrela e quer agir como se fosse literalmente uma bola de fogo gigante que consumiria imediatamente nosso planeta e mais uma série de corpos celestes se realmente tivesse esse tipo de corpo.

Eu não posso dizer como pessoas que são kin com elementos celestiais se sentem ou agem, embora eu acredito que também não tenha tanto a ver com estes estereótipos. Porém, eu posso dizer que é só ler sobre as experiências de quem se identifica com caelgêneros ou com xenogêneros num geral para perceber que estão apenas falando de experiências de gênero de forma muito mais abstrata do que os padrões normativos de cada gênero ser equivalente a um corpo, um tratamento (conjunto de linguagem/títulos/nomes esperados) e certas normas sociais.

Por exemplo, aqui estão alguns trechos traduzidos do blog da pessoa que cunhou gênero-estrela (1) (2):

Ultimamente eu estive experienciando um novo gênero que não é homem ou mulher! Eu não acredito que seja agênero, porque é certamente um gênero! É, tipo, bem neutro no “espectro” de gênero, mas não sinto que é andrógino.

A razão pela qual chamo isso de gênero estrela é que, uh, porque quando eu estava pensando sobre ele num dia eu de alguma forma comecei a pensar sobre gêneros não-humanos/de alienígenas e como seriam realmente desconhecidos por qualquer pessoa no momento, e daí acabei pensando que talvez fosse o mesmo gênero que estrelas poderiam ter? (desculpe isso parece super bobo uh)

(…)

Eu apreciaria retorno/crítica em relação a isso, assim como para a terminologia para “Gênero Estrela” já que ainda estou usando o termo rudimentar que cunhei quando estava tendo dificuldade com palavras.

Basicamente, a pessoa estava experienciando um gênero neutro, mas com elementos relacionados com desconhecimento, o que a pessoa relacionou com ser algo de fora do planeta.

Obviamente, gênero-estrela é tecnicamente algo deste planeta porque foi cunhado aqui, mas por que não usar algo não relacionado puramente com gêneros binários ou com o que está entre eles para descrever o próprio gênero? Experiências de gênero podem ser incrivelmente diversas, e reduzir o vocabulário possível para “não parecer mentira” só atrapalha as experiências pessoais de pessoas não-binárias.

Eu já não diria com tanta certeza que gênero-vácuo é um gênero, mas é por conta de uma tecnicalidade, e não do motivo que a maioria pensa: gênero-vácuo é um termo geralmente usado para denotar ausência de gênero, e portanto não é um gênero, mesmo sendo uma identidade de gênero 100% válida.

Aqui está a tradução de um trecho de uma postagem que responde uma pergunta sobre a diferença entre agênero e gênero-vácuo:

Pessoalmente, “gênero-vácuo” não ressona muito comigo da mesma forma que “agênero” ressona.

E mais, algumas pessoas usam agênero como meio que um “gênero neutro”. Enquanto outras usam o termo para dizer que são completamente sem gênero.

Por exemplo, eu flutuo/fluo entre “gênero neutro” e “sem gênero”. Eu sinto que agênero é melhor para me descrever, já que cobre minha flutuação.

Gênero-vácuo, nem tanto. Gênero-vácuo parece que só me cobre quando não tenho gênero. Não me cobre quando meu gênero é neutro.

Já uma resposta a uma pergunta similar (mas que também inclui sem gênero) feita para outro blog contém o seguinte trecho:

Por exemplo, agênero é um termo associado com ser de um gênero neutro e com ausência de gênero. Sem gênero como termo enfatiza a falta de gênero. Gênero-vácuo dá a ideia de espaço e buracos negros e vazio vasto de gênero.

Aqui temos a presença da questão chave dos xenogêneros: a utilização de coisas que “não são gêneros” como metáforas para descrever identidades de gênero.

Identidade de gênero é algo social que tem a ver com quais arquétipos você se identifica ou não dentro da sociedade. Existem pessoas que se veem em arquétipos como mulher ou homem, existem pessoas que se encaixam em algo entre essas coisas, existem pessoas que se veem em arquétipos como masculinidade, neutralidade e feminilidade sem se verem em arquétipos relacionados a gêneros binários, e existem pessoas que não conseguem se encaixar nem nisso.

Daí existem as pessoas que negam se encaixar em qualquer coisa assim, as pessoas que se encaixam em algo mas que só conseguem definir seu arquétipo como a negação destes outros, e as pessoas que se encaixam em arquétipos considerados “novos” ou “inventados”, porque eles não conseguem ser descritos usando apenas os arquétipos mais próximos ao padrão.

Mas eles podem, talvez, ser descritos com metáforas sobre/comparações com objetos espaciais, pedras preciosas, estilos de roupas, plantas, animais, temperaturas, cores e uma porção de outras coisas. E é uma pena que esta diversidade interessante e que deveria ser explorada mais é afastada de uma boa porção da comunidade por “parecer trollagem”.

Aqui estão uns links que recomendo ler para entender mais:

~ Ás

Traduções para pronomes baseados em substantivos (nounself pronouns)?

Recebemos a seguinte pergunta:

Qual seria a tradução dos pronomes Fireself, starself e etc? Ou não tem nenhuma até o momento?

Bem. Eu gostaria de começar dizendo que não existe tradução exata para conjunto nenhum, além de she/her (a/ela/a) e de he/him (o/ele/o).

Isso porque o nosso contexto é bem diferente.

Por exemplo, they/them e it/its são conjuntos que são considerados padrão na língua inglesa. Lá, a briga não é “isso é contra a gramática porque são palavras inventadas”, e sim “isso é contra a gramática porque essas palavras estão sendo usadas errado”.

Por consequência, they/them como um conjunto neutro universal é algo muito mais constante e aceito do que e/elu/e como um conjunto neutro universal. 10 anos atrás, they/them singular provavelmente seria um conjunto traduzido como x/elx/x ou @/el@/@, porque e/elu/e ou conjuntos similares não eram tão populares.

O que eu quero dizer com isso é que podemos achar análogos que passem mais ou menos a mesma ideia do conjunto original; porém, o contexto cultural faz com que não possa existir nenhuma tradução 100% garantida.

Por serem apenas palavras inteiras a serem substituídas quando pessoas possuem pronomes diferentes na língua inglesa (na maioria), há uma liberdade maior em relação à escolha de um conjunto de pronomes.

Aqui, ao formar um conjunto de linguagem, precisamos de pronomes que comecem com vogais (para que funcionem em palavras como dele ou aquily), de finais de palavra que não sejam compridos ou inconvenientes demais (para que funcionem em palavras como lindae e professorel) e de artigos que não possam ser confundidos com outras palavras ou com parte do nome da pessoa.

E, além disso, neolinguagem é bem menos normalizada. A maioria das pessoas ainda acha aceitável classificar linguagem apenas como masculina/feminina/neutra ou como algo do tipo elu/delu, como se tudo isso fosse óbvio e fixo e bom para todo mundo. E tem pessoas não-binárias brasileiras que nem querem se meter com a falta de conhecimento da população geral sobre neolinguagem, preferindo assim usar o/ele/o e/ou a/ela/a na língua portuguesa mesmo que usem they/them ou outros conjuntos em espaços anglófonos.

Então, antes de considerar uma tradução, acho que o contexto deveria ser considerado. Se você vai traduzir uma obra fictícia, meio que tudo bem inventar qualquer coisa. Se você vai dizer para alguém “você usa isso em inglês então deveria usar isso em português”, é uma questão mais complicada: é bem mais fácil alguém usar um conjunto fora do padrão ao falar inglês do que português.

Se você tem interesse em conjuntos temáticos relacionados a fogo e estrela, posso sugerir alguns:

fo/ogo/o | fo/ogo/’ | f/og/o | fo/og/o | of/ogo/o | -/🔥/-

estre/el/a | e/estrel/a | -/estrel/a | -/estre/el  | a/estre/el | estre/ela/e | la/estre/- | -/⭐/-

Você também pode modificá-los, especialmente considerando que os finais de palavra o e a são muito associados a identidades binárias ou de qualidades associadas com gêneros binários.

Porém, como eu falei, não há como ter traduções exatas, porque os contextos culturais são diferentes demais para que qualquer conjunto de neopronomes possa ter uma tradução perfeita e universalmente aceita.

Espero ter ajudado.

~ Ás

Resposta a uma pergunta que demonstra sentimentos complexos sobre gênero

Yun, que usa (o, u)/(ele, elu)/(e, u) (linguagem formatada para facilitar a visualização), mandou a seguinte pergunta:

Olá, em agosto do ano passado descobri minha sexualidade (pansexual) e desde então venho questionando sobre minha identidade de gênero, porém estou muito confuso, as vezes eu não me importo em ter uma aparência mais feminina, ou que utilizem pronomes ou nomes femininos, mas tem vezes que isso me incomoda muito e que eu sinto muita disforia, no momento prefiro pronomes masculinos ou neutros.

Cheguei a pensar que sou uma pessoa não-binárie, ou gênero-fluido, ou até mesmo um homem trans, mas sinto que não me encaixo em lugar nenhum e estou muito confuso, é possível ser um homem trans gênero-fluido? Comecei a me questionar isso recentemente, me identifico muito como gênero-fluido, mas gosto de ter uma aparência mais masculina ou andrógina, e estou pensando seriamente na possibilidade de futuramente fazer um tratamento hormonal e uma mastectomia.

Eu apenas gostaria de saber quem eu realmente sou, não aguento mais me sentir tão confuso…

(Parágrafos adicionados para facilitar a leitura.)

Bem, para começar, acho que é importante você ter em mente que os seguintes conceitos existem:

Alinhamento de gênero é uma forma de pessoas não-binárias falarem que possuem certas similaridades com algum gênero ou a alguma identidade de gênero, sem que sua identidade de gênero chegue a ser necessariamente próxima ou igual a ela.

Uma pessoa agênero que não se importa de viver e ser tratade como homem no dia-a-dia pode dizer que é solariana, ou seja, seu alinhamento de gênero é com o gênero homem. Ume andrógine lésbique que sente que sua atração funciona como a de uma mulher, mesmo que não queira ser tratade como mulher em geral, pode dizer que é lunariane, ou seja, seu alinhamento de gênero é com o gênero mulher.

(Existem vários alinhamentos de gênero que não são binários também, mas quis dar uns exemplos fáceis.)

Expressão de gênero é uma forma de se vestir, de agir, de usar acessórios, de fazer modificações corporais, e etc. que performa qualidades relacionadas a gênero.

Um homem que gosta de ter unhas pintadas e usar vestidos e sapatos de salto alto pode dizer que tem uma expressão de gênero feminina. Uma pessoa gênero neutro que tenta ao máximo possível esconder “sinais de gêneros binários” em sua aparência ou forma de agir pode dizer que tem uma expressão de gênero neutra.

É possível ler mais sobre alinhamento e expressão de gênero neste texto.

Transição física desejada é algo que, embora possa indicar a identidade de gênero de alguém, não necessariamente é correspondente com as noções cissexistas do que é o “sexo certo para cada gênero”.

Existem mulheres trans que querem manter seu pênis. Existem proxvires que não se importam em ter vagina. Existem mulheres não-bináries que querem remover seios e crescer barba. Existem homens cis que colocam ou querem colocar seios de silicone.

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Vocabulário usado em círculos NHINCQ+ inclusivos

Aviso de conteúdo: Por ser um texto explicativo, esta postagem conterá exemplos de retórica anti-NHINCQ+ (e ocasionalmente opressiva contra outros grupos também) em diversos aspectos, além de menções a termos obsoletos/inadequados.


 

Muitas vezes, espaços NHINCQ+ só consideram vocabulário básico saber o que significam certas orientações, identidades de gênero, modalidades de gênero, corporalidades e nomes de opressões específicas para certos grupos (como homomisia [“homofobia”] ou transmisia [“transfobia”]).

Podem até mesmo não explicar tais conceitos direito, em nome de “deixar as coisas mais fáceis” (ainda que isso deixe as coisas mais difíceis por conta de ser difícil combater a desinformação).

Em espaços mais inclusivos, queremos não só considerar que grupos específicos são ou passam por certas coisas. Ou que só os termos da sigla LGBTQIAPN+ merecem atenção. Existem infinitos rótulos possíveis para orientações e identidades de gênero, e não queremos ignorar que, por exemplo, a falta de reconhecimento de pessoas que sentem atração por mais de um gênero afeta mais do que pessoas bi. Afinal, existem pessoas pan, toren, trixen, poli, omni, urânicas, netúnicas, penúlti

No entanto, antes de começar as listas, quero pontuar que estes termos mais abrangentes são simplesmente mais adequados em muitas situações, mas não necessariamente eliminam a utilidade ou necessidade de termos já existentes. Por exemplo, se alguém fala de como especificamente a orientação bi é retrógrada e desnecessária, e que pessoas deveriam usar poli, pan ou outras identidades multi, a pessoa está sendo bimísica, afinal, isso realmente só afeta pessoas bi.

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“Acho que não me identifico totalmente com o meu gênero designado, e agora?”

Algumas pessoas conseguem facilmente identificar suas identidades. Percebem que se encaixam na definição de agênero desde que conhecem o termo, se veem como homens assim quando descobrem que a possibilidade existe, ou se veem como seu gênero designado a vida toda e não entendem como alguém poderia ser diferente, por exemplo.

Para outras pessoas, a situação pode ser mais complexa. Talvez seja por não preencherem os estereótipos do gênero que acham que poderiam ser, talvez seja por sua identidade ser complexa, confusa ou com vários aspectos, talvez seja por terem internalizado que precisam se encaixar em seu gênero designado, entre outras possibilidades.

Já escrevi sobre motivos pelos quais alguém pode começar a pensar que não é cis/ipso. Mas mesmo tendo certeza sobre disforia corporal, troca de nome e uma série de outras questões, nada disso aponta para uma identidade de gênero específica.

Um problema comum com dúvidas de pessoas que estão começando a questionar sua identidade de gênero é que as preocupações muitas vezes são apresentadas de forma simplista. “Eu não gosto de ter seios”, “eu gosto do pronome ile”, “eu queria que gênero não existisse”, “eu gosto de usar saias”, “a maior parte das minhas amizades é de tal gênero”, entre outras coisas, podem ser indicações de uma identidade de gênero fora do padrão cis/binário, mas não são necessariamente características que só pessoas trans/NB possuem, e não são características atreladas a algum gênero em particular.

Ao contrário do que o imaginário cisnormativo pensa, comunidades trans (binárias ou não-binárias), ao menos as que são inclusivas, não possuem interesse particular em encaixar pessoas em estereótipos de gênero. Não temos interesse em dizer que se você faz tal coisa você é de tal gênero.

Aqui, vou tentar apresentar questões que podem te ajudar a pensar em como apontar sua identidade de gênero. Novamente, são só apontamentos, e não uma garantia de que você vai terminar de ler e ter uma ideia melhor de por onde começar sua busca por identidades de gênero.

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Resposta a uma pergunta comprida sobre gênero e orientação

Uma pessoa que preferiu permanecer anônima mandou a seguinte pergunta:

Sempre me considerei uma pessoa trans não-binária e gênero-fluído e fui designado homem ao nascer, mas ando tendo certos questionamentos. Minha dúvida é se posso me considerar gênero-fluído, ter um gênero que muda de tempos em tempos, e ao mesmo tempo homem não-binário. Por mais que minha identidade de gênero não seja constante, me sinto confortável tendo uma expressão de gênero considerada masculina e também conectado de certa forma com a hombridade/masculinidade. E também me identifico em pautas como “sexualização de homens negros”, “invisibilidade de homens bissexuais”, etc. Provavelmente porque a sociedade me põe/pôs na posição de homem, mas enfim. No entanto, na maioria das vezes não gosto que me chamem de homem ou me leia como tal pela questão de fluidez. Ainda poderia aderir o rótulo?

Sobre minha sexualidade, atualmente me vejo como bissexual/pansexual e birromântica/panromântica. Os dois “bi” e “pan” me representam. A minha preferência é geralmente por homens, mas o engraçado é que ela geralmente depende do gênero que eu sou em determinado momento. Por exemplo, quando me vejo como uma mulher, tendo a preferir e fantasiar sexo com mulheres. (Me pergunto se por tal questão posso me considerar sáfique…) Parece que sempre estou no lado homoafetivo da coisa, haha. Mas sobre a questão de atração por mulheres, acho que preciso de um certo laço formado (o que não demanda muito tempo ou intimidade) para sentir atração sexual na prática, mas não ocorre o mesmo com homens. Ainda assim seria válido me rotular como demissexual/demirromântico? Demi-bi seria uma opção? Eu realmente não sei e espero que possam tirar minhas dúvidas.

Como esta pergunta tem duas partes, vou separar a resposta em duas partes também.

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Sobre uma das perguntas que recebemos neste fim de semana

Uma pessoa nos enviou uma dúvida sobre sua própria orientação, e pediu para que respondêssemos somente pelo e-mail. Porém, ao tentar responder, o servidor retornou que o e-mail preenchido não existe.

Caso você tenha enviado uma pergunta sobre ser de uma orientação que começa com A, que marcou para que a resposta fosse somente por e-mail, e o nome/apelido que você colocou comece com D, favor entrar em contato enviando um e-mail para ajudanhincq (arroba) protonmail.com, para que possamos te enviar a resposta.

Por favor envie um e-mail falando mais sobre suas circunstâncias novamente também, para que tenhamos certeza de que é a mesma pessoa antes de enviarmos a resposta.