O sistema artigo/pronome/final de palavra

Apesar de já termos respondido algumas perguntas relacionadas a isso, e, inclusive, em uma delas já existem alguns links sobre conjuntos de linguagem, acho importante ter uma postagem especificamente sobre isso.

Texto da imagem:
Artigo/pronome/final de palavra
No contexto de um conjunto de linguagem:
• Artigo é o que vem na frente do nome: o Lúcio, i Erin
• Pronome substitui o nome: isto é dela, é ile ali
• Final de palavra (ou terminação) substitui o final das palavras com flexão “de gênero”: aluna, linde, meniny
E é assim que fica na prática:
o/ele/o • O Juno é fotógrafo. Essa câmera é dele.
ê/elu/e • Ê Juno é fotógrafe. Essa câmera é delu.
-/ily/y • Juno é fotógrafy. Essa câmera é dily.
a/-/i • A Juno é fotógrafi. Essa câmera é di Juno.
Saiba mais: orientando.org/o-que-e-neolinguagem
Dúvidas? ajudanhincq.wordpress.com/pergunte
Fonte da imagem de fundo

Sugestão: salve esta imagem e a compartilhe em grupos de chat, especialmente quando você for explicar sua linguagem neste sistema.

O sistema a/p/f, ou a/p/t (com t significando terminação), foi criado há alguns anos, para suprir a necessidade de explicar de forma rápida e resumida o conjunto de linguagem pessoal de alguém. Em inglês, os formatos utilizados só usam pronomes, mas, em português, isso não funciona bem.

Um final de palavra é necessário, porque ele nem sempre é igual à letra final do pronome. Alguém que usa o pronome ele geralmente vai usar o final de palavra o, enquanto alguém que usa o pronome elu geralmente vai usar o final de palavra e. A primeira presunção é óbvia para quem está acostumade com a língua portuguesa, mas a segunda não é.

Além disso, separar o final de palavra do pronome dá a possibilidade de pessoas usarem finais de palavra ou pronomes que não são considerados “óbvios”, ou concordantes: ele/e, elu/u, ile/o.

Já o artigo é separado porque, ainda que nas linguagens padrão (a/ela/a e o/ele/o), o artigo seja o mesmo que o final de palavra, os finais de palavra mais populares entre pessoas que se esforçam para escrever de forma neutra e pessoas não-binárias são x e e; como artigos, um deles causa incerteza sobre a pronúncia (como final de palavra, é só não pronunciar a letra x, e a palavra ainda será entendível), e outro já existe como outra palavra (uma conjunção aditiva).

Em resposta a isso, foram criados novos artigos, como ê e le, que não funcionam tão bem como finais de palavra populares. Assim, é importante também sinalizar o artigo, para que pessoas possam diferenciar e/elu/e de ê/elu/e e de le/elu/e. Isso também dá a liberdade de usar conjuntos como a/ele/e, o/ela/a, le/ile/o, entre outros.

Esta postagem já está longa, então, ainda que eu quisesse entrar em outros assuntos, vou parar por aqui. Quem quiser saber mais sobre o motivo disso tudo ser importante, vou deixar algumas leituras aqui:

PS: Falar sobre seu conjunto de linguagem é importante mesmo que você use a/ela/a ou o/ele/o. Dizer que você usa o pronome ela sabendo que a grande maioria vai saber que isso significa a/ela/a impede que pessoas usem conjuntos como al/ela/ae sem terem que explicar o que isso tudo significa, enquanto usar a/ela/a normaliza a ideia do artigo e do final de palavra.

Nossas redes sociais, e como serão as interações

Agora temos uma conta de Twitter em AjudaNHINCQ, e uma conta no Fediverso em AjudaNHINCQ@colorid.es.

Elas são principalmente para gerar postagens automáticas a partir deste blog.

Ou seja, nosso método principal de receber perguntas ainda será pelo nosso formulário, e nosso objetivo é que o método de interação principal seja por comentários no blog, não por essas contas.

A conta no Twitter pode ser mais usada para falar mais sobre conteúdo NHINCQ+, que será postado no Mastodon. A conta no Mastodon será pouco usada, porque enquanto tudo que funciona no Twitter funciona no Mastodon, nem tudo que funciona no Mastodon funciona no Twitter, em questão do que pode ser postado (limite de caracteres, emojis personalizados, avisos de conteúdo, etc).

Caso tenham interesse em conteúdo NHINCQ+ no Fediverso, sugiro checar a instância colorid.es, e contas como @termos, além de contas pessoais de pessoas que postam sobre esse tipo de assunto.

Futuramente, teremos páginas falando sobre nossa equipe e sobre como fazer contato, mas por enquanto, isso é só.

~ Ás

Termos para a família

A., que usa o pronome ele, fez o seguinte pedido:

Eu queria seriamente saber o neutro de Pai/mãe e variados tipo Vô/Vó

Não existem palavras reconhecidas para funções do tipo. Qualquer palavra que você escolher usar vai ter que ser explicada para a maioria das pessoas, inclusive as familiarizadas com neolinguagem.

Uma opção é usar palavras que possuem significados diferentes desses que você citou, mas que, dependendo, podem servir, como parente, responsável, familiar ou (pro)genitore.

A outra é usar alguma opção proposta mas pouco usada, ou cunhar algo que lhe agrade.

Algumas propostas podem ser encontradas aqui e aqui.

Em relação a cunhar algo novo, eu tenho uma observação a fazer: é possível fazer dois tipos de palavras do tipo.

Uma seria uma palavra neutra, no sentido de que valeria independentemente do gênero e da linguagem da pessoa. Por exemplo, rês é uma versão curta de responsável, e portanto não mudaria entre uma pessoa que usa -/elu/e e i/ily/y. Também poderia ser usada por pessoas que estão confortáveis com mãe ou pai, em vários (mas não todos) os casos.

Outra seria uma palavra que muda de acordo com o final de palavra. Por exemplo, atore (versão com final e de ator/atriz) seria para pessoas com final de palavra e, enquanto uma pessoa com final de palavra ae se diria atorae, e uma pessoa com final de palavra x se diria atorx.

Para mãe/pai, eu pessoalmente prefiro versões com n, como nai/nanai/nane. Eu também gosto da ideia de usar a sílaba fa e completar com um final de palavra, como em fae (final e), fay (final y) ou fá (final a).

Para avó/avô, acho que talvez avo (pronúncia: á-vo) poderia servir, assim como avu (pronúncia: a-vú). Talvez usar o final de palavra para variações em vovó/vovô, como vevé ou vevê, vyvy ou vaevae, sendo que pessoas NB que usam final a poderiam usar vavá e quem usa final o poderia usar vovo (pronúncia vô-vo)? Isso pode ficar meio confuso, mas acho que é uma questão de costume.

Enfim, experimente e veja o que acha melhor. Ao menos no momento, não existem muitas regras fixas.

Quanto a “variados”, não sei bem o que você precisa, já que essas seriam as variações mais difíceis. Irmane? Tie? Prime? Sobrinhe? Cunhade?

Enfim, espero ter ajudado.

~ Ás

Além do que Aster respondeu, seguindo as lógicas usadas nas outras páginas e aqui nessa postagem, eu sugiro algo que pareça com as terminações -ãe e -ai (de mãe e pai). Pensamos em -aê. Daí poderíamos ter as palavras faê, naê e baê. (e talvez fafaê, nanaê e babaê). Pensei em faê como uma alternativa neutra que engloba também mães e pais. Mas pode ser só uma opção alternativa assim como as outras, dependendo de qual a pessoa gostar.

Sei que a princípio são termos estranhos e parece que nunca vão se espalhar, mas também acredito ser questão de costume. Cunhar palavras novas, ainda mais seguindo as raízes, é bem difícil. Por ora, acho que é isso.

~ Oltiel

Sobre comunidades e conjuntos

Hash enviou as seguintes perguntas:

Eu sou polixenogênero e não tenho muito contato com comunidades não-binárias em português. Tudo que eu encontrei de material NB popular eram definições básicas ou grupos sem muito conhecimento ou foco em xenogêneros. Eu gostaria de saber se existem grupos por aí em português aonde seja normal falar das próprias experiências xenogênero.

Também gostaria de sugestão de linguagem. Uso ae/aer em inglês por ser algo que remete a ar (meu elemento de gênero é éter, que é ar + espírito). Prefiro ter apenas um conjunto ao ficar trocando quando os gêneros mais presentes em mim mudam. O elemento de gênero ar significa fluidez e usar ar como base para um conjunto me contempla como pessoa xenogênero. Dito isso, prefiro que o final de palavra seja uma letra só, como e, y ou i. Também não gosto de a, e, o, ae, ao, oa, x ou y como artigos. Sei que posso só cunhar algo pra me contemplar, mas eu queria saber das sugestões de vocês.

Já agradeço pelas respostas!

Infelizmente, não conheço comunidades focadas em pessoas xenogênero, ou que tenham muitas pessoas xenogênero, em português.

(Sinceramente, não conseguiria nem indicar grupos mais específicos do que NB, trans ou gênero-fluido, ainda que eu saiba que existem homens NB, mulheres NB, pessoas do espectro agênero, pessoas NB transfemininas e pessoas NB transmasculinas suficientes para fazer grupos entre si, se assim desejassem. Mas realmente não conheço muitas pessoas xenogênero lusófonas.)

Se você deseja espaços inclusivos de pessoas xenogênero… tem a instância de Mastodon que administro, colorid.es, e um fórum que administro em http://orientando.org/forum, além de alguns servidores de Discord (um do Orientando, um para treinar neolinguagem, e um para/sobre este blog). Se quiser, depois é só falar comigo em Aster#3972 para eu te convidar para esses servidores.

Sobre o conjunto:

Em relação a um artigo, posso sugerir: ea, el, en, le, i, fe ou não usar nenhum.

Em relação a um pronome, talvez algo como ael, ale, el, elae, éli, elz, il, íli, ily ou yl?

Em relação a um final de palavra… acho que você já respondeu por si? Não existem muitas alternativas pronunciáveis em relação a finais com uma letra só. Se e, i e y não te agradam, só se for algo como x (pronúncia muda), z, s ou é.

~ Ás

PS: Acredito que muita gente possa não ter entendido alguns termos nesta postagem, então aqui estão alguns links que podem ajudar quem se dispõe a aprender mais:

O que são xenogêneros?

O que são elementos de gênero (em inglês)

Elemento alteriano (ligado ao elemento espírito): Um elemento de gênero xenino (em inglês)

Elemento ventuliano (ligado ao elemento ar): Um elemento de gênero vago/indefinido/difícil de definir (em inglês)

Elemento eteriano (éter; ar + espírito): combinação dos elementos alteriano e ventuliano (em inglês)

Exemplos de artigos, pronomes e finais de palavra que incluem neolinguagem

Testador de conjuntos

Agênero e gay

Esta postagem é para responder à seguinte pergunta:

olá. durante muito tempo me identifiquei como um homem cisgênero, mas há algum tempo essa identidade já não me contempla mais. Hoje eu me identifico como não binário, principalmente numa identidade neutra de gênero (ou agênera). Apesar de eu não mais me identificar como homem, eu sinto que tenho questões e experiências ainda alinhadas a hombridade, principalmente quando o assunto é sexualidade (tenho atração por homens). Devido a isso eu ainda me identifico sexualmente como gay. O que vocês acham? Muito gente da comunidade gay diz que sou apenas gay, enquanto o pessoal da comunidade não binária diz que invalido identidades nb. =/

Historicamente, a identidade gay pertenceu a homens atraídos sexualmente apenas por outros homens. Essa conotação binária e sexual permanece até hoje, infelizmente. A identidade agora é acessível e reivindicada por homens assexuais e do espectro assexual que se atraem apenas por homens, pois as relações gays não envolvem apenas sexo, mas também afetividade, romanticidade, e outros tipos de relação. Um homem gay também pode se atrair por gêneros similares ao homem.

Você pelo visto sabe o conceito de alinhamento de gênero. Pois bem, pessoas alinhadas com o gênero homem podem acessar identidades feitas para homens. Então, por essa perspectiva, você pode se dizer gay. Essa apresentação sua pode não deixar em evidência que você é não-binário, mesmo que ela seja confortável de usar em certos espaços. Se você não se importar com isso, então está tudo bem.

Agora, se é importante também evidenciar sua não-binariedade, talvez a identidade gay não seja a melhor para seu caso (embora você ainda possa usar quando e onde quiser). Há uma identidade de atração específica para pessoas não-binárias (em geral) que se atraem por homens, exclusivamente ou pelo menos na maior parte do tempo): vir- (sexual, etc).

Você pode ver em certos espaços brasileiros pessoas usando a identidade andro-. Ela, assim como gine-, são controversas porque trazem uma conotação de atração por genitálias, o que é algo problemático e opressivo. Vir- é uma alternativa melhor e bem aceita.

E ressalto que você pode usar ambas identidades, gay e vir-, em espaços diferentes se assim quiser. Elas podem ser suas ao mesmo tempo.

A resposta da comunidade gay parece invalidar sua não-binariedade e/ou seguir a lógica do “mesmo sexo biológico”, o que é problemático. E a resposta da comunidade n-b parece ser apenas desconhecimento da flexibilidade da identidade. Bom, acredito que seja só isso que tenho a dizer.

~ Oltiel


É muito comum que pessoas sem muito contato com pessoas não-binárias (inclusive pessoas NB que participam de espaços pouco diversos e com pouco espaço pra falar da diversidade de experiências NB) invalidem qualquer tipo de identidade que simplesmente… não sabiam que podia existir. Então, sim, sua identidade é válida.

Já citaram a identidade viramórica (virsexual/virromântica/etc.), também existe ma-/home-/homem- (massexual, homerromântico, etc.), e, se você é agênero, eu também posso citar a orientação yae- (yaessexual/yaerromântica/etc.), que foi cunhada recentemente para denotar atração de alguém agênero por homens. Se você prefere algo mais aberto, existe mascúlique (alguém LGBTQIAPN+ que sente atração por homens, exclusivamente ou não).

Se você considera que “ser homem” ainda faz parte de sua identidade de alguma forma (mesmo que seja pelo alinhamento de gênero), você pode se dizer homem agênero gay, ou homem gênero neutro gay, ou homem NB gay, o que evidencia tanto que você é homem e se atrai somente por homens, quanto que você não é uma pessoa binária. A invalidação ainda vai existir, mas ao menos você está explicando o que quer dizer com gay.

Talvez não seja o seu caso, mas conheço muitos casos de pessoas se apegando a uma conexão a um gênero binário que não está realmente lá por terem participado bastante de comunidades lésbicas/gays antes de se descobrirem NB. Realmente não existem muitos espaços para pessoas dóricas (não-binárias e atraídas por homens, exclusivamente ou não), em comparação com espaços para pessoas aquileanas (de homens que se atraem por homens, exclusivamente ou não), o que pode isolar alguém que quer se assumir NB. Talvez você queira refletir sobre isso e ver o que é melhor pra você.

Espero que nossas respostas tenham ajudado, e desejo boa sorte em sua jornada!

~ Ás

Discussão: como criar crianças sendo NHINCQ+

Sabemos que vivemos num mundo intolerante contra pessoas NHINCQ+.

Bebês são designades como homem ou mulher ao nascimento, sendo que mesmo no caso de bebês intersexo, é obrigatório o registro como um sexo binário.

A maior parte dos nomes é considerada “nome de mulher” ou “nome de homem”, e a maior parte das roupas também carrega essa divisão. Ainda que crianças não tenham nenhuma característica física perceptível que determinaria seu gênero dentro das normas cissexistas, pessoas em volta vão forçar gêneros e/ou papeis de gênero em crianças e ensinar cada criança a fazer o mesmo.

Ou seja, uma criança com o nome de Bruno vestida com calças largas e camiseta de super-herói provavelmente vai ser tratada com a linguagem o/ele/o, vai ser chamada de “homenzinho”, vai ser pressionada a ver meninas da mesma idade como “possíveis namoradinhas”, vai ser colocada “no lado dos meninos” quando houver esse tipo de divisão, e por aí vai.

Também é bastante possível que essa criança não será ensinada a usar algum tipo de linguagem neutra para se referir a pessoas que não conhece; que não será ensinada que alguns meninos gostam de meninos e que algumas meninas gostam de meninas; que é possível não gostar de ninguém desse “jeito especial” e que também é possível gostar de meninos E meninas E possivelmente de pessoas que não se encaixam nessas palavras também. Assim como provavelmente não vai aprender sobre a diferença entre gênero e sexo, sobre pessoas trans, sobre pessoas NB, sobre pessoas intersexo.

Mas algumas pessoas podem ter filhes e querer ensinar ao menos sobre algumas dessas coisas, pois querem que sues filhes cresçam respeitando essas diferenças, ou, principalmente, porque são pessoas NHINCQ+ e querem rebater essas mensagens nocivas da sociedade.

E então? Se você tem filhes, como está sendo a criação delus, em relação a isso? Se você pretende ter, como tratará desses assuntos? E, mesmo se não pretende ter, o que você acha que faria? Mande seu comentário abaixo!

Assunto sugerido por Cas. Postagem por Ás.

Limitações de conjuntos

Resposta para Vini, que perguntou:

Tem como diferenciar quem não quer usar final de palavra no sentido de querer que usem palavras “universais” (ex: a pessoa é válida), e quem não quer usar final de palavra no sentido de querer que cortem o final (ex: [nome da pessoa] é válid)?

No momento, não existe nenhum tipo de código universal que sirva para isso.

Eu já usei (e ainda aceito) ‘ como final de palavra (exemplos: administrador’, alun’, amig’), que ainda “ocupa” um caractere, mas que em geral as pessoas sabem que não é para pronunciar. Uma das formas de usar x como final de palavra é também sem nenhuma pronúncia na fala oral. Mas entendo que possam existir pessoas que preferem só palavras como administrador/alun/amig, sem mais nada.

O que eu posso sugerir, além de perguntar para cada pessoa que preenche – no final de palavra o que preferem, é algum tipo de símbolo novo.

Por exemplo, – pode significar que a pessoa quer que o elemento seja cortado e que continue assim mesmo, enquanto ~ pode significar que tal elemento seja evitado com algum tipo de referência a outras palavras. Como:

  • -/-/-: Um estudante daquela escola passou por aqui agora pouco. Deve estar atrasad.
  • ~/~/~: Uma pessoa que estuda naquela escola passou por aqui agora pouco. Essa pessoa deve estar atrasada.

Porém, pode ser meio complicado fazer com que as pessoas lembrem disso, já que nem lembram de coisas como [r] (para elemento rotativo) ou [q] (para qualquer).

Pensando bem, talvez algo como [NA], [n/a], [n] ou [s] possa ser mais explicativo do que ~? Depende do que outras pessoas acharem melhor.

~ Ás

Orientação difícil de rotular

Resposta para L, que usa -/elu/o e escreveu:

Minha atração é confusa pra mim. Tem vezes que tenho certeza de ter atração por pessoas (por mais de um gênero), outras vezes não. Não acho que é fluida ou fluxa (?), mas sim vaga e confusa (e geralmente inexistente). Uso pomossexual pra mim porque é mais simples, mas tenho medo disso me prejudicar. Não quero parecer alguém que odeia rótulos específicos, e não quero me isolar de comunidades maiores.

Não há nada de errado em usar pomossexual, na maioria das situações. Independentemente de você estar usando o rótulo por querer evitar outros, ou por não saber como se definir. Usar um rótulo específico não significa odiar a existência de outros rótulos ou odiar pessoas que usam outros rótulos.

Se você estiver com vontade de usar outros rótulos, ou de trocar de rótulo, eu posso sugerir alguns, mas não posso garantir que você goste de usar eles, ou que eles sejam mais adequados do que pomossexual.

Orientações para pessoas cujas atrações são difíceis de entender/explicar/apontar:

Abro-: Quando sua orientação, ou sentimentos em relação a ela, flutuam constantemente. (Tenha em mente que esta orientação tem uma conotação forte de fluidez.)

Ari-: Alguém que não consegue articular como ou por quem sente um ou mais tipos de atração.

Novi-: Alguém cuja orientação é muito complicada e difícil de descrever.

Quoi-/Que-/Wtf-: Alguém que sente que o conceito de atração é sem sentido ou não aplicável para si mesme.

Sans-: Alguém cuja atração não segue nenhuma linha, ela faz o que faz.

Xum-: Alguém que não consegue definir sua orientação; alguém que tenta achar termos para ela, mas nenhum parece correto, devido a problemas de identidade ou de autoconfiança. A pessoa pode nunca conseguir achar um termo que a contemple, por palavras não serem suficientes, ou por conta de alguma neurodivergência.

Orientações para pessoas que sentem pouca atração:

Ace-espectral: Alguém cuja identidade é relacionada a ser assexual. Pessoas do espectro assexual podem não sentir atração sexual nenhuma, ou ter atração sexual fraca, rara e/ou inconstante. Também podem querer especificar atitudes relacionadas a sexo, porque ainda que orientações sejam definidas por relações com atração (e não ação), muitas pessoas também consideram outros conceitos importantes para rotular suas orientações. (Também existe a-espectral, que engloba outros tipos de orientações; estou focando na orientação sexual porque você cita pomossexual especificamente.)

Caligo-: Alguém que sente atração muito fraca ou vaga, quase inexistente, como vapor ou neblina.

Gray-a-/Gray-/Cinza-a-/Cinza-/Gris-: Alguém que sente atração raramente, vagamente ou fracamente.

Nano-/Nano(orientação)-: Alguém que raramente sente atração, ou que sente atração tão pequena a ponto de quase não existir.

Termos para pessoas que sentem atração por mais de um gênero:

Bi-: Alguém que sente atração por dois ou mais gêneros.

Multi-: Um termo para agrupar todas as orientações que são definidas por atração por mais de um gênero (bi, pan, omni, etc). Também pode ser utilizado como uma orientação por si só.

Pluraliane: Alguém que:
– Sente atração por múltiplos gêneros;
– Sente orgulho de/celebra sua atração por múltiplos gêneros igualmente.

Pluraliane foi um termo cunhado para abranger qualquer pessoa bi, pan, poli, oni, paro, multi, etc., em resposta à popularidade de blogs sáficos e aquileanos.

Poli-: Alguém que sente atração por vários gêneros.

Você também pode combinar termos, se dizendo novissexual a-espectral, ou caligossexual pluraliano, ou mesmo pomossexual a-espectral e multi. Ou cunhar um termo novo.

Também é perfeitamente possível você ainda se identificar só como pomossexual e participar de comunidades a-espectrais e multi que não são específicas para quem usa algum termo específico. Por exemplo, talvez você não possa participar de um grupo só para pessoas quoissexuais se você não se sente a vontade com esse termo, mas um grupo que aceita qualquer pessoa que não sente atração sexual frequente/constante pode não se importar em incluir pessoas que não usam termos especificamente ace-espectrais.

Espero que isso ajude!

~ Ás

Olá mundo!

Esta é a primeira postagem do blog Ajuda NHINCQ+. A sigla NHINCQ+ significa Não-Hétero, Intersexo, Não-Cis, Queer/Questionando e mais identidades similares. Ou seja:

NH inclui qualquer pessoa que não se considere somente/totalmente hétero, ou que está completamente fora disso. Isso inclui pessoas gays, bissexuais, sáficas, panromânticas, assexuais, arromânticas, multi, pomossexuais, quoirromânticas, heteroflexíveis, diamóricas, abro, e de muitas outras orientações.

Definimos “somente/totalmente hétero” como pessoas de um gênero binário que se atraem apenas por pessoas do outro gênero binário em todas as orientações relevantes, com bastante frequência e sem condições relevantes.

I inclui qualquer pessoa que não seja categorizada facilmente como alguém do “sexo feminino” ou do “sexo masculino” num sentido médico, sem ter passado por nenhuma modificação corporal para chegar em tal estado.

Uma pessoa com cromossomos XXX ou com níveis hormonais diferentes do esperado para seu corpo sem ter feito nenhum tipo de terapia hormonal é intersexo. Uma pessoa que fez cirurgia para retirar testículos ou que tomou bloqueadores hormonais não é intersexo por conta disso (mas é possível fazer esses procedimentos sendo intersexo).

Notem que existem dezenas de variações corporais que são agrupadas dentro do rótulo intersexo: portanto, dizer que intersexo é um “terceiro sexo” está errado. E nem todas as variações intersexo fazem do corpo de alguém “entre os dois tipos de corpos perissexo” (perissexo significa não-intersexo): existem pessoas com cromossomos XYY, com cromossomos XXX, que nasceram com vagina mas sem clitóris, entre outras.

NC inclui qualquer pessoa que diverge parcialmente ou completamente do gênero que lhe foi designado ao nascimento. Ou seja, pessoas trans, não-binárias, gênero-fluido, demigênero, bigênero, poligênero, sem gênero, etc.

Também inclui outras pessoas que não são percebidas como cisgênero pela sociedade branca/ocidental, como:

• Pessoas que se identificam com o gênero que lhes foi designado ao nascimento, mas que são tratadas como se seus corpos não fossem adequados para seus gêneros (como pessoas ipsogênero – intersexo, mas que se identificam com o gênero designado ao nascimento – por exemplo);

• Pessoas que possuem identidades de gênero que não são equivalentes a “homem cis” ou “mulher cis”, mesmo que suas identidades sejam aceitas/atribuídas dentro de sues própries culturas/sociedades/povos.

Q inclui não só qualquer pessoa NH/I/NC que queira se dizer queer, como também pessoas que preferem se definir como queer ao invés de se definir pelo que não são (não-cis/não-hétero), ou que se sentem a vontade de se dizer queer sem se sentirem à vontade em se dizerem NH/I/NC.

Queer é um termo para pessoas que divergem das normas sociais vigentes sobre gênero e atração. Usar queer não significa que a pessoa não pode se definir de outras formas (como lésbique, polissexual ou andrógine, ou até mesmo como mulher ou cis), e não significa que a pessoa estudou teoria queer. A identidade veio bem antes da teoria.

Q também inclui pessoas que estão questionando, ou seja, que não sabem se são cis ou não, se são hétero ou não, se são perissexo (não-intersexo) ou se são intersexo.

+ inclui pessoas que também sofrem sob cissexismo/heterossexismo/diadismo ou sob opressões relacionadas, mas que não se sentem nem confortáveis em se dizer NH/I/NC e nem confortáveis em se dizer queer.

A proposta da comunidade NHINCQ+ (que se pronuncia “nhin-que mais”) é um convite. Um convite para pessoas que sofrem de opressões similares, ainda que possam ser bem diferentes entre si.

Ninguém tem a obrigação de usar NHINCQ+ para si, mesmo que caiba em alguma parte da descrição. E ninguém tem a obrigação de usar NHINCQ+ como substituição para LGBT(QIAPN)+ ou para queer, caso não queiram.

Mas este é um espaço para pessoas que se propõem a se dizer NHINCQ+.