Quais as diferenças entre bi e pan? Algum dos termos é problemático?

Gui, que usa o/ele/o, enviou a seguinte mensagem:

Oii, tudo bem?
No tiktok e no twitter tem um MONTE de informações sobre pansexualidade; uma delas é que ”pansexuais são iguais a bissexuais a não ser pelo contexto histórico”; e também dizem que ”pansexuais podem ter preferências”
Mas eu pesquisei no google e a definição de pan é basicamente, ”não se importar com gênero”, e o prefixo ”pan” diz exatamente isso!
Meu amigo não sabe se é bi ou pan, então queria ajudar ele e poder ajudar a comunidade pan para acabar com a panfobia!
* O que é pansexualidade?
* Qual a diferença da pansexualidade para a bi sexualidade?
* Por que dizem que é inválida?

É preciso entender que ser pan pode englobar várias experiências diferentes. O prefixo “pan”, que significa “tudo”/”todes”, junto a uma palavra que designa um tipo de atração como “sexual”, “romântico” e outras, significaria no sentido literal que aquela pessoa teria atração por todos os gêneros. Apesar disso, essa identidade historicamente teve atrelada a si o significado de que identidade de gênero não importava para quem sentia a atração. No fim de tudo isso, pan pode significar atração que não depende de gênero ou atração por todo e qualquer gênero (que envolva ou não preferências, de modo que alguém sinta mais ou menos atração por certa identidade).

Numa análise de definições isso pode não ser claro, mas na prática há sim diferenças entre as orientações bi e pan, e a maior delas é que a pan não tem delimitações, algo como “alguns ou quase todos os gêneros”. Ela engloba todas as possibilidades de modo que elas sejam relevantes ou não para a atração. A bi envolve atração por mais de um gênero, então ela (ênfase nessa parte) pode não ser delimitada, mas não é exclusivamente voltada a todas as possibilidades. Então pessoas bi podem não se atrair por todas as identidades. Ou podem. Podem “não ligar” pra elas. Ou podem. Pessoas pan já necessariamente englobam todas as possibilidades.

Mas surge uma pergunta. “Se bi pode ser a mesma coisa que pan, por que pan existe?” Essa pergunta gera inúmeras e inúmeras discussões na comunidade. E aí vemos pessoas pan sendo acusadas de bimisia, pessoas bi sendo acusadas de panmisia. Mas por quê? No fim, tudo se deve a um contexto que eu vou tentar resumir aqui.

Numa sociedade eurocêntrica ocidental cujas identidades de gênero eram restritas a duas (ainda são, mas vamos nos focar nos anos 1960), os chamados “sexos”, o tal do homem e mulher, não se discutia muito a respeito da existência de várias identidades e da não-binariedade. Nesse contexto surgiu o movimento bissexual, pessoas que se atraíam por “ambos os sexos” (não é por isso que a bissexualidade é exorsexista! Muito pelo contrário. Esse foi simplesmente o contexto em que ela estava inserida na época, e que mudou com o tempo).

Com o passar dos anos, a discussão sobre diversas identidades de gênero foi crescendo e algumas pessoas sentiram necessidade de reconhecer em sua identidade que pessoas não-binárias existiam, uma espécie de reforço, frisando a existência delas para mostrar que as atrações daquelas envolviam necessariamente todos os gêneros ou independiam deles. Assim, o movimento pansexual foi ganhando força.

“Mas espere. Você disse que bissexual não é um termo exorsexista e agora está dizendo que pan surgiu para incluir pessoas não-binárias? Então bi não inclui não?”

Inclui sim. Esse é um trecho do Manifesto Bissexual, de 1990:

“Bissexualidade é um todo, identidade fluída. Não assuma que a bissexualidade é naturalmente binária ou poligâmica: que nós temos “dois” lados ou que nós precisamos estar envolvides simultaneamente com dois gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não presuma que existem apenas dois gêneros.”

Pessoas bissexuais reconhecem, há muito tempo inclusive, que existem mais de dois gêneros. Seu caráter fluido descrito no manifesto, na verdade, pode abranger quase que qualquer tipo de orientação não-mono, incluindo a atração independente de gênero que a pansexualidade contém.

E é aqui que voltamos à nossa pergunta inicial. “Se bi pode ser a mesma coisa que pan, por que pan existe?”

Acontece que pan é um termo que existe e resiste para deixar claro que nossa atração, NECESSARIAMENTE, engloba toda e qualquer vivência de gênero. Deixa claro que numa sociedade cisheterossexista, nossa atração independe de fatores como gênero. Pan é um termo que é parte importante da nossa vivência, e carrega um valor histórico importante para identidades multi.

Apesar disso, algumas pessoas liberam ódio contra o movimento pan por acharem que, por bi ser uma identidade completamente fluida e que engloba inúmeras possibilidades, a pansexualidade é um rótulo desnecessário e inválido (e não é, porque pan não necessariamente significa a mesma coisa que bi, como já visto, além de ter um valor histórico que não pode ser ignorado).

Outras afirmam falsamente que o movimento pan nasceu “como atração por homem, mulher e trans”, acusando falsamente o movimento de ser transfóbico. Outras ainda relacionam falsamente a pansexualidade a fetiches e parafilias, o que é puramente e historicamente incorreto e, inclusive, uma atitude panmísica. Pessoas pan redigiram recentemente um Manifesto Pan, que fala melhor essas situações. Deixo o link no final desta resposta.

Não saia daqui afirmando que movimentos bi e pan são inimigos, ou que um invalida o outro. Venho provar exatamente o contrário. Os dois lutam contra o mesmo sistema eurocêntrico ocidental cisheterossexista em que vivemos e que oprime infinitas vivências mundo afora.

Como pessoa pan, senti que precisava meter o nariz aqui e responder esta dúvida recorrente. Há muita gente invalidando identidade por aí porque pensa “não ser necessária”, ou ser problemática. Reforço aqui que não é porque uma identidade é parecida com a outra que isso a torna inválida e desnecessária. Muito menos a sua existência apaga a de outra identidade.

A visibilidade não é um brilho que alguém ofusca. Existem infinitas experiências que no fim talvez precisassem de infinitos termos. E se alguém não vive a identidade de outra pessoa, quem é tal pra dizer que a referida identidade é irreal?

Manifesto Pan (02/12/2021): https://manifestopansexual.carrd.co/

– Muriel

Eu só gostaria de adicionar que, historicamente, e inclusive hoje em dia (embora com menos frequência), comunidades bi ou bissexuais acabam sendo um refúgio para quaisquer pessoas que saem dos padrões lésbicos/gay/hétero, por bi ser o termo mais conhecido fora estes.

Então existiam e existem pessoas com orientações fluidas (que mudam de tempos em tempos), que não sentem atração por ninguém, que estão questionando e não conseguem se definir, que são variorientadas (atração sexual, romântica e/ou outras possuem alvos diferentes) e afins que se veem ou viram como bi e/ou bissexuais. Esta história não é compartilhada pela comunidade pan, já que é um termo que veio depois e que é menos popular.

Minha experiência pessoal é que eu já me identifiquei como bi por ser um termo “seguro” para mim, já que sou arofluxo e demissexual e por isso sinto atração por poucas pessoas, de forma que não me sinto confortável afirmando que sinto atração por todos os gêneros e estou menos confortável ainda em afirmar que sinto atração sem que gênero seja um fator (quando a maior parte da minha atração é por homens). Eventualmente, justamente pela bandeira que várias pessoas bi vêm levantando sobre bi ser a mesma coisa que pan (e que, portanto, todas as pessoas bi não se importam com gênero e/ou sentem atração por todos os gêneros), deixei de usar o termo; digo que sou poli, multi, pluraliane e/ou virflexível, mas não digo mais que sou bi.

Porém, reforço que esta é uma experiência pessoal. Conheço pessoas que não se atraem por todos os gêneros e que ainda se dizem bi, assim como pessoas que se atraem por todos os gêneros e que ainda assim preferem se dizer bi, poli e/ou omni, possuindo motivos pessoais para não se dizerem pan.

No fim, acredito que a melhor escolha de rótulo é a que a pessoa se sente confortável usando. Alguns rótulos vão ter mais conotações negativas ou imprecisas, enquanto outros podem ser menos populares e portanto vistos como “modinha” e/ou “inúteis”. Também acho bom lembrar que é possível usar mais de um rótulo de uma só vez: muitas pessoas se reivindicam bi e pan, ou bi e poli, ou pan e omni, ou bi, poli e pan, e por assim vai.

Para quem se interessa, há um texto descrevendo em detalhes as diferenças e os pontos em comum entre as orientações bi, poli, pan e omni aqui.

– Ás