O que se faz com palavras que não mudam só o final de palavra?

Alguém que preferiu ficar anônimae perguntou:

No que se refere às alternativas neutras para substantivos heterônimos, assim como termos biformes fora do padrão, o final da palavra ainda é alterado de acordo com o conjunto de linguagem da pessoa?

fica difícil mudar fim de palavra com uma simples terminação se toda a palavra denota algum gênero binário

é necessário então mudar mais do que o fim dessa palavra, ou mexendo na estrutura ou então cunhando outra palavra diferente

~ Muriel

Isso é uma questão bem pessoal e complexa também. Mas vamos lá. Assim, os termos biformes são todos heterônimos, porque são palavras com radicais diferentes para ambos gêneros gramaticais normativos. Temos o exemplo clássico de pai e mãe.

Essas palavras vão quase sempre exigir alternativas cunhadas mesmo, palavras totalmente novas. Existem propostas. Mesmo que haja uma alternativa que será usada como neutra padrão, nada impede a cunhagem de outras palavras, e que talvez possam agradar pessoas de outros conjuntos.

Pessoas que usam o final e, por exemplo, podem preferir os pronomes minhe e sue por causa da terminação. Mesmo assim, e mesmo e sendo a neoflexão mais comum e popular, isso não impede que haja as propostas mi e su, e que isso cause ainda discordância sobre qual dessas palavras seria a melhor, ou a mais indicada como uma alternativa neutra padrão. Porém, é provável que alguém que use final i pode preferir mi, e alguém que use final u pode preferir su. Alguém que usa final ae pode não se incomodar com a palavra mãe, tanto por ter ae na palavra quanto por ser associada a um final parecido (a), da mesma forma que alguém que usa final u pode não se incomodar com a palavra pai, por ter um final de palavra parecido com o.

É uma discussão longa, varia de pessoa em pessoa, e não existem respostas definidas.

Agora, existem palavras com flexões mais diferenciadas, e que podem talvez seguir com o conjunto de cada pessoa. Por exemplo, para sacerdote e sacerdotisa existe a alternativa sacerdotixe. Alguém que usa final ae poderia usar sacerdotisae, e alguém que usa final i poderia usar sacerdotixi.

Enfim, o que temos pra agora são propostas e nenhum consenso. Portanto cabe a cada ume analisar e ver qual alternativa lhe agrada, e, se não houver, considerar cunhagens. Espero ter respondido sua pergunta.

~ Oltiel

O que tenho a adicionar é o seguinte: existem palavras onde a “versão neutra” vai ser uniforme, e outras palavras onde a “versão neutra” vai poder mudar de acordo com o final de palavra.

O exemplo dado da palavra mi (alternativa neutra para meu/minha) e da palavra minhe (outra alternativa, mas uma que usa o final de palavra e) é útil pra explicar isso: quando alguém usa mi, não importa se a outra pessoa tem o final de palavra i, e, ae, el, y ou afins: a palavra vai ser sempre mi. Porém, quando alguém usa minhe, isso indica especificamente o final e, então este final seria trocado por outros para falar sobre minhel amiguel, minhae alunae ou mínhi advogádi.

Agora, se “o certo” é usar as versões com final de palavra flexível ou não, isso vai depender de cada pessoa e situação. Na dúvida, não tem problema em escolher algo que pareça que dê menos chances de fazer com que alguém se sinta maldenominade: por exemplo, eu não recomendaria usar mãe pra alguém que tem o final de palavra ae ao invés de náter (versão que não usa final de palavra) ou nae sem perguntar com antecedência.

Aqui tem um link para várias informações sobre neolinguagem, que também inclui algumas listas de palavras alternativas para estas situações. Algumas não vão ter final de palavra flexível (como heréi ou nadriarca), enquanto outras sim (como atore e reinhe).

~ Ás

O sistema artigo/pronome/final de palavra

Apesar de já termos respondido algumas perguntas relacionadas a isso, e, inclusive, em uma delas já existem alguns links sobre conjuntos de linguagem, acho importante ter uma postagem especificamente sobre isso.

Texto da imagem:
Artigo/pronome/final de palavra
No contexto de um conjunto de linguagem:
• Artigo é o que vem na frente do nome: o Lúcio, i Erin
• Pronome substitui o nome: isto é dela, é ile ali
• Final de palavra (ou terminação) substitui o final das palavras com flexão “de gênero”: aluna, linde, meniny
E é assim que fica na prática:
o/ele/o • O Juno é fotógrafo. Essa câmera é dele.
ê/elu/e • Ê Juno é fotógrafe. Essa câmera é delu.
-/ily/y • Juno é fotógrafy. Essa câmera é dily.
a/-/i • A Juno é fotógrafi. Essa câmera é di Juno.
Saiba mais: orientando.org/o-que-e-neolinguagem
Dúvidas? ajudanhincq.wordpress.com/pergunte
Fonte da imagem de fundo

Sugestão: salve esta imagem e a compartilhe em grupos de chat, especialmente quando você for explicar sua linguagem neste sistema.

O sistema a/p/f, ou a/p/t (com t significando terminação), foi criado há alguns anos, para suprir a necessidade de explicar de forma rápida e resumida o conjunto de linguagem pessoal de alguém. Em inglês, os formatos utilizados só usam pronomes, mas, em português, isso não funciona bem.

Um final de palavra é necessário, porque ele nem sempre é igual à letra final do pronome. Alguém que usa o pronome ele geralmente vai usar o final de palavra o, enquanto alguém que usa o pronome elu geralmente vai usar o final de palavra e. A primeira presunção é óbvia para quem está acostumade com a língua portuguesa, mas a segunda não é.

Além disso, separar o final de palavra do pronome dá a possibilidade de pessoas usarem finais de palavra ou pronomes que não são considerados “óbvios”, ou concordantes: ele/e, elu/u, ile/o.

Já o artigo é separado porque, ainda que nas linguagens padrão (a/ela/a e o/ele/o), o artigo seja o mesmo que o final de palavra, os finais de palavra mais populares entre pessoas que se esforçam para escrever de forma neutra e pessoas não-binárias são x e e; como artigos, um deles causa incerteza sobre a pronúncia (como final de palavra, é só não pronunciar a letra x, e a palavra ainda será entendível), e outro já existe como outra palavra (uma conjunção aditiva).

Em resposta a isso, foram criados novos artigos, como ê e le, que não funcionam tão bem como finais de palavra populares. Assim, é importante também sinalizar o artigo, para que pessoas possam diferenciar e/elu/e de ê/elu/e e de le/elu/e. Isso também dá a liberdade de usar conjuntos como a/ele/e, o/ela/a, le/ile/o, entre outros.

Esta postagem já está longa, então, ainda que eu quisesse entrar em outros assuntos, vou parar por aqui. Quem quiser saber mais sobre o motivo disso tudo ser importante, vou deixar algumas leituras aqui:

PS: Falar sobre seu conjunto de linguagem é importante mesmo que você use a/ela/a ou o/ele/o. Dizer que você usa o pronome ela sabendo que a grande maioria vai saber que isso significa a/ela/a impede que pessoas usem conjuntos como al/ela/ae sem terem que explicar o que isso tudo significa, enquanto usar a/ela/a normaliza a ideia do artigo e do final de palavra.