Chamada: Rodízio NHINCQ+ de 10/22

Bem-vindes ao primeiro Rodízio NHINCQ+! Vamos começar com um tema relativamente genérico:

Gênero, orientação e a relação entre tais conceitos

O tema pode ser interpretado de diversas formas. Inclusive, só coloquei gênero ali porque alguém pode querer falar sobre termos que envolvem gênero que não são estritamente identidade de gênero, como expressão de gênero, gênero designado ao nascer, gênero nos documentos, alinhamento de gênero, modalidade de gênero, ausência de gênero ou afins.

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Experiências arofluxo?

Uriel, que usa ua/ila/a, enviou o seguinte:

Olá!

Vocês poderiam compartilhar algum relato sobre a experiência de pessoas arofluxo? Estou analisando se o termo pode descrever minha experiência com a arromanticidade, mas, como não encontrei ninguém falando acerca disso, não me sinto particularmente confiante.

Previamente, obrigada! 🙂

Oi!

Pessoalmente, me identifico como arofluxo porque existem períodos na minha vida que não sinto atração romântica nenhuma (por anos, por exemplo), e outros onde sinto atração que só consigo considerar romântica por muitas pessoas diferentes em períodos de tempo curtos (menos de uma semana).

Além disso, há épocas onde perco a atração romântica de um dia pro outro mesmo que nada tenha mudado minha opinião sobre o alvo da atração, apenas para tal atração voltar mais tarde. Ou mesmo que não consigo entender mais se meus sentimentos são românticos ou não.

Outras pessoas talvez achem que isso é arbitrário, e que “todo mundo passa por isso”, mas, na minha experiência, pensar em mim como arofluxo – como alguém no espectro arromântico cuja orientação flui entre cinromântica, akoirromântica, quoirromântica, choixromântica, omniaro e outras – faz mais sentido do que tentar pensar em mim como alguém alorromântique. Experiências arromânticas são comuns demais a mim para que eu me veja de outra forma.

Sobre outras experiências: o que achei foi Being Aroflux and Black, e postagens no Reddit como esta, esta e esta.

Se você sente que arofluxo descreve bem suas experiências, não há problema em usar o termo, mesmo que mais pra frente você sinta que outro te contemple melhor. Agora, se você tem dúvidas demais acerca disso para se sentir confortável com o termo, você pode usar outro. Você pode não definir sua orientação romântica, ou pode só se dizer aro ou grisromântica.

Espero ter ajudado.

~ Ás

Dórique ou tórique?

Ramy, que usa ê/elu/e entre outros conjuntos, fez a seguinte pergunta:

Eu sou não-binárie, sinto atração independentemente por homens? Mas algo que me diz que me confunde é: Dórique ou Tórique?

Pessoas dóricas são pessoas não-binárias que sentem atração por homens, exclusivamente ou não. Um dos termos para pessoas não-binárias que sentem atração exclusiva por homens é viramórique.

Tanto dórique quando tórique são traduções de toric. A questão é que o primeiro leva em consideração que, na língua portuguesa, os termos que terminam em -tor no idioma inglês e/ou latino – o motivo pelo qual o termo se chama toric – terminam em -dor, como aviador e embaixador, enquanto o segundo termo tenta ser mais parecido com a versão original.

A mesma coisa vale para trízique (ver: atriz, imperatriz) e tríxique, um dos termos para pessoas não-binárias que sentem atração por mulheres, possuindo outras atrações além desta ou não.

~ Ás

Quais as diferenças entre bi e pan? Algum dos termos é problemático?

Gui, que usa o/ele/o, enviou a seguinte mensagem:

Oii, tudo bem?
No tiktok e no twitter tem um MONTE de informações sobre pansexualidade; uma delas é que ”pansexuais são iguais a bissexuais a não ser pelo contexto histórico”; e também dizem que ”pansexuais podem ter preferências”
Mas eu pesquisei no google e a definição de pan é basicamente, ”não se importar com gênero”, e o prefixo ”pan” diz exatamente isso!
Meu amigo não sabe se é bi ou pan, então queria ajudar ele e poder ajudar a comunidade pan para acabar com a panfobia!
* O que é pansexualidade?
* Qual a diferença da pansexualidade para a bi sexualidade?
* Por que dizem que é inválida?

É preciso entender que ser pan pode englobar várias experiências diferentes. O prefixo “pan”, que significa “tudo”/”todes”, junto a uma palavra que designa um tipo de atração como “sexual”, “romântico” e outras, significaria no sentido literal que aquela pessoa teria atração por todos os gêneros. Apesar disso, essa identidade historicamente teve atrelada a si o significado de que identidade de gênero não importava para quem sentia a atração. No fim de tudo isso, pan pode significar atração que não depende de gênero ou atração por todo e qualquer gênero (que envolva ou não preferências, de modo que alguém sinta mais ou menos atração por certa identidade).

Numa análise de definições isso pode não ser claro, mas na prática há sim diferenças entre as orientações bi e pan, e a maior delas é que a pan não tem delimitações, algo como “alguns ou quase todos os gêneros”. Ela engloba todas as possibilidades de modo que elas sejam relevantes ou não para a atração. A bi envolve atração por mais de um gênero, então ela (ênfase nessa parte) pode não ser delimitada, mas não é exclusivamente voltada a todas as possibilidades. Então pessoas bi podem não se atrair por todas as identidades. Ou podem. Podem “não ligar” pra elas. Ou podem. Pessoas pan já necessariamente englobam todas as possibilidades.

Mas surge uma pergunta. “Se bi pode ser a mesma coisa que pan, por que pan existe?” Essa pergunta gera inúmeras e inúmeras discussões na comunidade. E aí vemos pessoas pan sendo acusadas de bimisia, pessoas bi sendo acusadas de panmisia. Mas por quê? No fim, tudo se deve a um contexto que eu vou tentar resumir aqui.

Numa sociedade eurocêntrica ocidental cujas identidades de gênero eram restritas a duas (ainda são, mas vamos nos focar nos anos 1960), os chamados “sexos”, o tal do homem e mulher, não se discutia muito a respeito da existência de várias identidades e da não-binariedade. Nesse contexto surgiu o movimento bissexual, pessoas que se atraíam por “ambos os sexos” (não é por isso que a bissexualidade é exorsexista! Muito pelo contrário. Esse foi simplesmente o contexto em que ela estava inserida na época, e que mudou com o tempo).

Com o passar dos anos, a discussão sobre diversas identidades de gênero foi crescendo e algumas pessoas sentiram necessidade de reconhecer em sua identidade que pessoas não-binárias existiam, uma espécie de reforço, frisando a existência delas para mostrar que as atrações daquelas envolviam necessariamente todos os gêneros ou independiam deles. Assim, o movimento pansexual foi ganhando força.

“Mas espere. Você disse que bissexual não é um termo exorsexista e agora está dizendo que pan surgiu para incluir pessoas não-binárias? Então bi não inclui não?”

Inclui sim. Esse é um trecho do Manifesto Bissexual, de 1990:

“Bissexualidade é um todo, identidade fluída. Não assuma que a bissexualidade é naturalmente binária ou poligâmica: que nós temos “dois” lados ou que nós precisamos estar envolvides simultaneamente com dois gêneros para sermos seres humanos completos. De fato, não presuma que existem apenas dois gêneros.”

Pessoas bissexuais reconhecem, há muito tempo inclusive, que existem mais de dois gêneros. Seu caráter fluido descrito no manifesto, na verdade, pode abranger quase que qualquer tipo de orientação não-mono, incluindo a atração independente de gênero que a pansexualidade contém.

E é aqui que voltamos à nossa pergunta inicial. “Se bi pode ser a mesma coisa que pan, por que pan existe?”

Acontece que pan é um termo que existe e resiste para deixar claro que nossa atração, NECESSARIAMENTE, engloba toda e qualquer vivência de gênero. Deixa claro que numa sociedade cisheterossexista, nossa atração independe de fatores como gênero. Pan é um termo que é parte importante da nossa vivência, e carrega um valor histórico importante para identidades multi.

Apesar disso, algumas pessoas liberam ódio contra o movimento pan por acharem que, por bi ser uma identidade completamente fluida e que engloba inúmeras possibilidades, a pansexualidade é um rótulo desnecessário e inválido (e não é, porque pan não necessariamente significa a mesma coisa que bi, como já visto, além de ter um valor histórico que não pode ser ignorado).

Outras afirmam falsamente que o movimento pan nasceu “como atração por homem, mulher e trans”, acusando falsamente o movimento de ser transfóbico. Outras ainda relacionam falsamente a pansexualidade a fetiches e parafilias, o que é puramente e historicamente incorreto e, inclusive, uma atitude panmísica. Pessoas pan redigiram recentemente um Manifesto Pan, que fala melhor essas situações. Deixo o link no final desta resposta.

Não saia daqui afirmando que movimentos bi e pan são inimigos, ou que um invalida o outro. Venho provar exatamente o contrário. Os dois lutam contra o mesmo sistema eurocêntrico ocidental cisheterossexista em que vivemos e que oprime infinitas vivências mundo afora.

Como pessoa pan, senti que precisava meter o nariz aqui e responder esta dúvida recorrente. Há muita gente invalidando identidade por aí porque pensa “não ser necessária”, ou ser problemática. Reforço aqui que não é porque uma identidade é parecida com a outra que isso a torna inválida e desnecessária. Muito menos a sua existência apaga a de outra identidade.

A visibilidade não é um brilho que alguém ofusca. Existem infinitas experiências que no fim talvez precisassem de infinitos termos. E se alguém não vive a identidade de outra pessoa, quem é tal pra dizer que a referida identidade é irreal?

Manifesto Pan (02/12/2021): https://manifestopansexual.carrd.co/

– Muriel

Eu só gostaria de adicionar que, historicamente, e inclusive hoje em dia (embora com menos frequência), comunidades bi ou bissexuais acabam sendo um refúgio para quaisquer pessoas que saem dos padrões lésbicos/gay/hétero, por bi ser o termo mais conhecido fora estes.

Então existiam e existem pessoas com orientações fluidas (que mudam de tempos em tempos), que não sentem atração por ninguém, que estão questionando e não conseguem se definir, que são variorientadas (atração sexual, romântica e/ou outras possuem alvos diferentes) e afins que se veem ou viram como bi e/ou bissexuais. Esta história não é compartilhada pela comunidade pan, já que é um termo que veio depois e que é menos popular.

Minha experiência pessoal é que eu já me identifiquei como bi por ser um termo “seguro” para mim, já que sou arofluxo e demissexual e por isso sinto atração por poucas pessoas, de forma que não me sinto confortável afirmando que sinto atração por todos os gêneros e estou menos confortável ainda em afirmar que sinto atração sem que gênero seja um fator (quando a maior parte da minha atração é por homens). Eventualmente, justamente pela bandeira que várias pessoas bi vêm levantando sobre bi ser a mesma coisa que pan (e que, portanto, todas as pessoas bi não se importam com gênero e/ou sentem atração por todos os gêneros), deixei de usar o termo; digo que sou poli, multi, pluraliane e/ou virflexível, mas não digo mais que sou bi.

Porém, reforço que esta é uma experiência pessoal. Conheço pessoas que não se atraem por todos os gêneros e que ainda se dizem bi, assim como pessoas que se atraem por todos os gêneros e que ainda assim preferem se dizer bi, poli e/ou omni, possuindo motivos pessoais para não se dizerem pan.

No fim, acredito que a melhor escolha de rótulo é a que a pessoa se sente confortável usando. Alguns rótulos vão ter mais conotações negativas ou imprecisas, enquanto outros podem ser menos populares e portanto vistos como “modinha” e/ou “inúteis”. Também acho bom lembrar que é possível usar mais de um rótulo de uma só vez: muitas pessoas se reivindicam bi e pan, ou bi e poli, ou pan e omni, ou bi, poli e pan, e por assim vai.

Para quem se interessa, há um texto descrevendo em detalhes as diferenças e os pontos em comum entre as orientações bi, poli, pan e omni aqui.

– Ás

Demissexual e outras coisas?

Alguém enviou a seguinte pergunta:

Olá, há algum tempo tenho de entendido como uma pessoa demissexual… No entanto não posso dizer que não tenho libido ou que minha libido eh fraca… Mas que sinto naturalmente atração sexual por quem criei algum tipo de vínculo e muito pouco provável vá sentir atração sexual por quem não tenho algum vínculo afetivo. No entanto, sou capaz de ter vínculo afetivo com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, com varias formas de expressão de gênero… Estou um pouco perdide e confuse. Sei que não me entendo como alguém que gosta e quer praticar sexo compulsivo, nem quero me entregar sexualmente a quem não posso confiar de fato. Ao mesmo tempo sinto que sou capaz de ter prazer com mais de uma pessoa (se houver conexão) independente do seu gênero… Como demissexual eh muito conhecido como um termo para assexuais (pessoas que sentem nenhuma ou pouca atração sexual) me senti um tanto contraditórie, uma vez que sou capaz sim de sentir atração sexual e muita, desde que os vínculos existam e eles podem se estabelecer com mais de uma pessoa, independente do gênero. Afinal, qual o termo para isso? Demi-multi? Ainda não sei… Espero que tenha sido clare, e se puder me ajudar com uma resposta, serei muito grate!

Sentir um desejo sexual grande sendo uma pessoa demi de maneira nenhuma contraria o fato de alguém ser assexual. A demissexualidade como expressão da assexualidade não é contraditória, porque ser assexual não é apenas sobre ter nenhum ou pouco desejo, também pode implicar num desejo que aparece somente numa condição específica, como esta, de só querer se relacionar sexualmente com pessoas com as quais se tem vínculos fortes. Pra ser assexual, não importa exatamente a quantidade de desejo que se tem quando a condição acontece; e sim que essa condição exista, esteja ali dentro.

Ademais, ser demissexual não invalida a existência de outras identidades, isto é, você pode se atrair sexualmente só por pessoas com quem você tem uma relação forte, e essa atração ainda assim pode depender (ou não) da identidade de gênero dessas pessoas (exemplo: lésbiques que são demissexuais). Sendo assim, você pode sim se identificar com vários rótulos ao mesmo tempo, identidades além da demissexualidade, como ser multi, bi/poli/pansexual (e ainda se considerar não-monogâmique).

(Nota pessoal: Não soube até hoje da existência de um rótulo que combine as duas identidades, multi e demi. Porém, você pode usar as duas em conjunto sem problema pelos motivos explicados acima, e se não existir nenhum nome que se encaixe na sua situação, você pode até cunhar o seu 🙂 )

– Muriel

Apenas adicionando, já que a resposta acima já cobriu todos os pontos importantes:

Existem alguns rótulos que combinam identidades a-espectrais com orientações que determinam por quantos/quais gêneros alguém sente atração, como aliquis, mas muitas pessoas simplesmente não especificam a orientação fora da a-espectralidade, enquanto outras combinam os prefixos.

Então vão ter pessoas que se dizem demissexuais multissexuais, outras que se dizem demimultissexuais, outras que se dizem multidemissexuais, outras que colocam hífen ou barra entre os prefixos para facilitar a leitura, e por assim vai.

Pessoalmente, eu geralmente só falo que sou demissexual em relação à minha orientação sexual, mas quando especifico a questão de gênero falo que sou virflexível e demissexual separadamente, ao invés de virflexdemissexual, ainda que seja uma opção válida. Não há regras, é uma questão de preferência.

– Ás

Repulsa a atos românticos, mas não a relacionamentos?

Alguém perguntou:

existe alguma orientação em que você gosta da ideia de namorar alguém, mas ao mesmo tempo sente repulsa em relação a coisas consideradas românticas ou a se imaginar participando delas?

Primeiramente, acho que vale a pena lembrar que orientações geralmente são definidas a partir da presença ou ausência de atração romântica, e de acordo com as condições para que a atração possa ocorrer (caso existam).

Embora não haja nada de errado em usar termos que indiquem mais do que isso, esse tipo de sentimento conflitante pode ser compatível com a maioria das orientações românticas. Uma pessoa pode ser panromântica e ter repulsa a atos vistos como românticos, ou pode ser arromântica mas ter interesse em participar de relacionamentos românticos por desejar a intimidade implícita nelas, por exemplo.

Ainda assim, é comum que existam termos a-espectrais – ou que geralmente são vistos como pertencentes a tal guarda-chuva – que indiquem esse tipo de detalhe. Aqui estão alguns deles, e mais outros que podem encaixar:

Inactromântique, inactorromântique ou initiarromântique: Alguém que sente atração romântica e que tem vontade de estar em relacionamentos românticos, mas que sente repulsa a ações associadas com atração romântica.

Acorromântique: Alguém que sente atração romântica e que quer agir com base nesta atração, mas que ao mesmo tempo sente uma grande aversão a isso por conta de apreensão, experiências ruins ou outros receios relacionados a se envolver em relacionamentos românticos.

ARCromântique: Alguém que sente aversão, repulsa e/ou conflito (no sentido de ter sentimentos conflitantes) em relação a romance. Alguém ARCromântique não precisa ser arromântique.

Apotirromântique: Alguém que tem repulsa a romance. Algumas definições – mas não todas – também especificam que pessoas apotirromânticas nunca sentem atração romântica.

Cupiorromântique: Alguém que não sente atração romântica, mas que deseja participar de relacionamentos românticos.

Aegorromântique: Alguém que consegue gostar da ideia de romance e fantasiar ativamente sobre romance, mas que não sente atração romântica, e provavelmente nem vontade de participar de um relacionamento romântico.
Alguém que possui uma falta de conexão entre si e o objeto de adoração romântica, de forma que talvez até consiga imaginar na teoria como seria se apaixonar, mas sem conseguir.

Volitromântique: Alguém capaz de sentir atração romântica, mas que não a sente por ninguém em particular.

Entendo que talvez nenhum destes termos seja adequado para essa situação específica da pergunta; inactorromântique chega perto mas não se a pessoa em questão for cupiorromântica também. Se for esse o caso, talvez um termo novo tenha que ser cunhado.

~ Ás

Orientação específica a certas identidades de gênero + expressões?

Alguém fez a seguinte pergunta:

existe alguma orientação em que você só sente atração por não bináries que não tem expressão de gênero masculina e por homens binários com qualquer expressão de gênero?

Em geral, recomenda-se não misturar atração por expressão de gênero e atração por identidade/alinhamento de gênero, já que isso tende a estereotipar pessoas de forma cissexista ou ao menos a parecer que a intenção é estereotipar.

Recomendamos o termo toren (atração por homens e por pessoas não-binárias sem especificar quantas ou quais identidades não-binárias estão inclusas em tal atração), embora tenham vários outros que também cubram essa possibilidade de atração, como bi, poli e virflexível.

~ Ás

Como identificar atração queerplatônica?

A seguinte pergunta foi enviada ao blog:

como eu faço pra saber se sinto atração queerplatônica ou não? Sempre que eu me imagino em um RQP, me imagino com outre não binárie, mas as vezes sinto que eu não sentiria atração nenhuma se eu realmente estivesse em um RQP e as vezes também questiono se o que eu sinto é só atração platônica mesmo

Se você não sente atração, você não sente atração. Não adianta muito ficar especulando sobre a possibilidade de você ter atração ou não.

Atração queerplatônica geralmente é definida como a vontade de estar em um relacionamento queerplatônico com alguém. Se você nunca teve vontade de ter relacionamentos queerplatônicos com alguém específique, você pode dizer que não sente essa atração.

Assim como outros tipos de atração, é possível ter fantasias ou mesmo não se importar em ter um relacionamento com alguém sem sentir atração. Pessoas cupio existem, pessoas aego existem, e pessoas que nem usam rótulos específicos pra isso além de assexual ou aro ou outros assim também.

E, assim como a maioria das pessoas não nasce sentindo atração, é possível que você eventualmente sinta atração e queira mudar o rótulo que usa (se é que você for usar um, já que orientações queerplatônicas raramente são mencionadas ou perguntadas sobre).

Porém.

Queerplatônique é um termo que foi feito para ser vago. Caso você possa, recomendo ler as seguintes postagens:

Estas postagens falam sobre o conceito de relacionamentos queerplatônicos ao invés do tipo de atração relacionado, mas a questão é que os conceitos de atração e de orientação queerplatônicas vieram depois – e a partir – desse conceito.

Você pode ter atração platônica ou alternativa (ou outra) e usar ela para medir interesse em relacionamentos queerplatônicos. Você também pode não definir nenhuma atração que você tem como queerplatônica e ainda se abrir à possibilidade de estar num relacionamento queerplatônico. Não há a necessidade de usar o conceito de atração ou de orientação queerplatônica se você não sabe se ele se aplica a você, ou se você concluir que esses conceitos não se aplicam a você.

Resumindo: Não dá pra fazer nenhum teste pra saber se você sente ou não certo tipo de atração. Mas isso também não é um problema. Você ainda pode entrar ou não entrar nos tipos de relacionamentos que você tem vontade de ter, sem que a atração importe. É importante se comunicar abertamente sobre suas vontades num relacionamento, independentemente das formas de atração que vocês sentem.

~ Ás

Ciclo-orientade?

A seguinte pergunta foi enviada:

existe alguma orientação que é que nem ciclogênero mas ao invés do gênero mudar é a orientação que muda? E qual é o nome de ciclogênero em inglês?

Ciclogênero (que é cyclogender na língua inglesa) possui dois significados:

  1. Um termo para pessoas cujas identidades de gênero mudam com o ciclo menstrual;
  2. Um termo para pessoas bipolares cujas identidades de gênero são entrelaçadas com seus episódios (maníacos, hipomaníacos, depressivos, mistos, etc).

Uma sugestão aqui é de separar os dois termos como ciclogênero-m e ciclogênero-b, respectivamente.

Quanto a ciclogênero-m, existe a orientação ciclo (também cyclo originalmente), cunhada aqui.

A definição é a mesma, mas com atração ao invés de gênero: alguém ciclo tem uma atração que funciona de forma diferente de acordo com o ciclo menstrual.

Já em relação a ciclogênero-b, existe oscil (termo original oscill), uma orientação que muda em relação a qualquer episódio de bipolaridade.

Como termos mais específicos, também foram cunhadas as orientações peto (uma orientação que muda durante episódios de mania ou hipomania) e fusc (uma orientação que muda durante episódios de depressão).

Caso a ideia seja usar só uma orientação que tem a ver com ciclos, também posso oferecer esses:

Cascada-: Uma orientação que é como se fosse uma cascata que passa por outras orientações, e que funciona como um ciclo.

Soroza-: Uma identidade como acefluxo/arofluxo/etc., mas que possui uma sequência específica de orientações pelas quais a pessoa passa.

Unda-: Uma orientação que vem e vai como a maré ou o ciclo da lua.

E daí também tem abro e duo mesmo, como termos mais gerais para orientações que passam por mudanças.

~ Ás

Ajuda com orientação?

Uma pessoa enviou a seguinte pergunta:

Sou gênero-fluido e abrossexual, mas somente teria um relacionamento sério com mulheres e gêneros relacionados com a feminilidade. Qual termo é adequado para essa situação?

Sinceramente, não sei bem qual a intenção da pergunta aqui. Penso que a resposta desejada pode ser para:

  • Existe um termo específico para alguém que é gênero-fluido, abrossexual e só quer ter relacionamentos compromissados com mulheres e pessoas não-binárias cujas identidades são relacionadas com feminilidade?
  • Se alguém é abrossexual mas só quer se relacionar com mulheres e pessoas não-binárias cujas identidades são relacionadas com feminilidade, ainda é mais adequado se dizer abrossexual?
  • Existe algum termo para uma pessoa que é abro em sua orientação sexual, mas que só sente atração romântica/alternativa/queerplatônica/etc. por mulheres e pessoas não-binárias cujas identidades são relacionadas com feminilidade?

A resposta a seguir tenta cobrir os três pontos, em nenhuma ordem específica. Espero que seja útil!


Se você já se considera abrossexual, você é abrossexual. Você não precisa usar outros rótulos para sua orientação, se não quiser, independentemente de quem você quiser ou não quiser namorar/ficar/etc.

Existem alguns termos juvélicos que podem ser usados em conjunto com sua orientação (ou no lugar dela) para dar ênfase em sua atração por mulheres e por pessoas não-binárias, como:

Ametriane/Amólique/Braunitiane: Alguém não-binárie capaz de sentir atração por mulheres e por pessoas não-binárias, exclusivamente ou não.

Enebeane: Alguém não-binárie capaz de sentir atração por pessoas não-binárias, exclusivamente ou não.

Trízique/Orbisiane: Alguém não-binárie capaz de sentir atração por mulheres, exclusivamente ou não.

Femínique/Femárique: Alguém LGBTQIAP+ capaz de sentir atração por mulheres, exclusivamente ou não.

Embinárique: Alguém LGBTQIAP+ capaz de sentir atração por pessoas não-binárias, exclusivamente ou não.

Caso o que você queira dizer é que, ainda que você seja abrossexual, você tem uma atração queerplatônica, romântica e/ou alternativa somente por mulheres e por pessoas de gêneros relacionados com feminilidade, existem orientações como:

Bi-: Alguém que sente atração por dois ou mais gêneros.

Poli-: Alguém que sente atração por múltiplos gêneros.

Trixen-: Alguém que sente atração exclusivamente por mulheres e por pessoas não-binárias.

Fin-/Fee-: Alguém que sente atração por pessoas com identidades femininas.

Femidux-: Alguém gênero-fluido que sente atração exclusivamente por mulheres.

Feminamórique/Femina-: Alguém não-binárie que sente atração somente por mulheres.

Você pode usar sufixos como -(r)romântique caso a orientação seja romântica, -queerplatônique caso a orientação seja queerplatônica, e por assim vai. Você também pode usar o sufixo -flexível para indicar que a atração não é exclusiva a tal ou tais gêneros; por exemplo, alguém feeflexível sente atração por pessoas com identidades femininas mas de vez em quando por outras pessoas também.

É possível usar sufixos como -orientade ou -atraíde se você não quiser ou puder especificar o tipo de orientação.

Você também pode, se quiser, deixar de usar abro, caso sinta que é mais relevante expressar com quem você quer ter relacionamentos ao invés de como sua atração funciona. Porém, especialmente em círculos com opiniões menos inclusivas, isso pode gerar conflitos com outras pessoas que sentem que você está “escolhendo sua orientação” de forma que supostamente fere outras pessoas (ainda que seja apenas algo que você esteja fazendo por sua própria conveniência em um mundo heterossexista e monossexista).

Qualquer que seja sua decisão, ela não é errada ou nociva. Sua orientação é sua e você não deve detalhes sobre ela a ninguém. Os critérios que cada pessoa usa para decidir quais termos usar para sua orientação não são universais e nunca foram, ainda que tenham pessoas que ditem o contrário. Estas só causam pessoas a esconder detalhes sobre suas orientações, ao invés de obrigar pessoas a escolherem as orientações “certas” segundo reducionistas com sucesso.

Porém, sugiro tomar cuidado caso alguém ofereça um termo para atração por “mulheres e pessoas femininas”, porque, ainda que possível, geralmente as definições que essas pessoas usam para justificar esse agrupamento são conformistas de gênero e/ou cissexistas.

“Pessoas femininas”, “pessoas de gêneros femininos” ou “pessoas de identidades femininas” não são equivalentes a “pessoas não-binárias com vaginas”, “pessoas que parecem mulheres” ou “pessoas designadas como mulheres ao nascimento”. Pessoas femininas podem ser homens cis inconformistas de gênero, podem ser melles, podem ser pessoas agênero, podem ser fessaris. Pessoas com gêneros relacionados com feminilidade também não necessariamente gostam de usar maquiagem ou vestidos, e não necessariamente possuem corpos afetados por estrogênio.

Mulher também não é equivalente de gênero feminino, por mais que nossa sociedade exorsexista, cissexista e conformista de gênero tente dizer o contrário. Mulheres podem ser pessoas neutras, masculinas, andróginas, etc. Pessoas com gêneros como neulier, femil e qufa também podem se dizer mulheres ou adjacentes a tal gênero.

Não estou dizendo que não é possível que pessoas tenham atração legítima apenas por mulheres e por pessoas femininas, de forma que não dê pra resumir isso como atração por mulheres e pessoas de identidades similares ou como atração por pessoas femininas porque tal atração inclui mulheres não-feminines e pessoas femininas que não são mulheres. Mas é por essas questões que dificilmente você vai achar um termo que inclua só esses dois fatores, ao invés de apenas múltiplos gêneros ou mulheres e pessoas não-binárias.

~ Ás